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Os Efeitos Negativos das Dietas Cetogénicas

Em primeiro lugar julgo necessário clarificar os leitores em relação ao que constitui exatamente uma dieta cetogénica.¹

Basicamente, consiste numa dieta muito rica em gordura (90%), moderada ou pobre em proteína (8%) e muito pobre em carboidratos (2%).¹

O que se pretende com esta dieta é forçar o organismo a utilizar a gordura como fonte quase exclusiva de energia, em vez de glicose.¹

Já na dieta de atkins a gordura constitui cerca de 64% das calorias totais, a proteína 32% e os carboidratos 4%.

Estes dois tipos de dietas ricas em gordura estão em claro constraste com a típica dieta dos norte-americanos, na qual os carboidratos representam cerca de 50% das calorias (265g), as gorduras constituem 35% (78,3g) e as proteínas 15% (78,1g).¹

Vale a pena realçar que a dieta cetogénica é relativamente pobre em proteína e por isso, em princípio não será a mais adequada para atletas de força e praticantes de musculação.(2)

COMO FUNCIONA A DIETA CETOGÉNICA?

Basicamente, a gordura passa a ser a principal fonte de energia (ATP), obtida a partir da oxidação de ácidos gordos livros no fígado, onde são convertidos nos corpos cetónicos acetoacetado, β-hidroxibutirato e acetona.¹

O acetoacetato e β-hidroxibutirato são depois lançados na corrente sanguínea, alcançando depois os tecidos corporais, que os convertem em acetil-CoA, um substrato do primeiro passo do ciclo de Krebs.¹

Esta dieta tem dois efeitos principais: reduz de forma ligeira os níveis de glicose no sangue, proporcionando assim uma melhoria do controlo glicémico e estimula a gliconeogénese, processo no qual esqueletos de aminoácidose e outros compostos são convertidos em glicose.¹

QUAIS SÃO OS POSSÍVEIS EFEITOS NEGATIVOS?

A curto-prazo:¹

  • Desconforto gastrointestinal
  • Náuseas e vómitos
  • Letargia
  • Níveis elevados de cetonas no sangue
  • Hipoglicemia
  • Tremores e inquietação
  • Deficiência de minerais (selénio, cobre e zinco)
  • Aumento dos níveis de colesterol LDL

A longo prazo:¹ ³

  • Níveis aumentados de colesterol LDL
  • Perda de massa mineral óssea
  • Pedras nos rins
  • Diminuição dos níveis de IGF-1
  • Atraso do crescimento (devido a níveis mais baixos de IGF-1)
  • Danos renais
  • Hipertrigliceridemia
  • Níveis de LDL elevados
  • Endurecimento das artérias.

Especialmente preocupante poderá ser o possível aumento dos níveis de LDL e de triglicerídeos bem como o endurecimento das artérias, pois sao factores de risco que estão estreitamente associados a danos vasculares e às doenças cardiovasculares.³ ⁴

AS DIETAS CETOGÉNICAS PODEM SER ÚTEIS?

Sim, podem ser úteis nas seguintes condições:

  • Esclerose lateral amiotrófica⁵
  • Alzheimer’s⁶
  • Parkinson’s⁶
  • Epilepsia (em crianças).⁷
  • Autismo⁸
  • Depressão⁹
  • Síndrome do ovário policístico¹⁰
  • Diabetes mellitus tipo 2¹¹
  • Obesidade¹²
  • Cancro¹
  • Doenças relacionadas com transportadores da glicose.¹³
  • Outras doenças metabólicas de causa genética.¹³

CONCLUSÃO

Como pode ver, a dieta cetogénica não é livre de riscos e não deveria ser utilizada ou prescrita de forma leviana, sobretudo pelas possíveis complicações cardíacas que poderão ocorrer ao longo prazo.

Também é verdade que pode proporcionar benefícios num número de situações clínicas, sendo que nesses casos o paciente deveria ser sempre acompanhado por um nutricionista experiente, pelo respetivo médico e outros profissionais de saúde.

    ➤ Mostrar/Ocultar Referências!
    1. Allen BG, Bhatia SK, Anderson CM, Eichenberger-Gilmore JM, Sibenaller ZA, Mapuskar KA, et al. Ketogenic diets as an adjuvant cancer therapy: History and potential mechanism. Redox Biology. 2014; 2:963-70.
    2. Campbell B, Kreider RB, Ziegenfuss T, La Bounty P, Roberts M, Burke D, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2007; 4:8-8.
    3. Kossoff E. Danger in the Pipeline for the Ketogenic Diet? Epilepsy Currents. 2014; 14(6):343-44.
    4. Smith SC, Jr. Multiple risk factors for cardiovascular disease and diabetes mellitus. The American journal of medicine. 2007; 120(3 Suppl 1):S3-s11.
    5. Zhao Z, Lange DJ, Voustianiouk A, MacGrogan D, Ho L, Suh J, et al. A ketogenic diet as a potential novel therapeutic intervention in amyotrophic lateral sclerosis. BMC neuroscience. 2006; 7:29.
    6. Baranano KW, Hartman AL. The ketogenic diet: uses in epilepsy and other neurologic illnesses. Current treatment options in neurology. 2008; 10(6):410-9.
    7. Neal EG, Chaffe H, Schwartz RH, Lawson MS, Edwards N, Fitzsimmons G, et al. The ketogenic diet for the treatment of childhood epilepsy: a randomised controlled trial. The Lancet Neurology. 2008; 7(6):500-6.
    8. Evangeliou A, Vlachonikolis I, Mihailidou H, Spilioti M, Skarpalezou A, Makaronas N, et al. Application of a ketogenic diet in children with autistic behavior: pilot study. Journal of child neurology. 2003; 18(2):113-8.
    9. Murphy P, Likhodii S, Nylen K, Burnham WM. The antidepressant properties of the ketogenic diet. Biological psychiatry. 2004; 56(12):981-3.
    10. Mavropoulos JC, Yancy WS, Hepburn J, Westman EC. The effects of a low-carbohydrate, ketogenic diet on the polycystic ovary syndrome: a pilot study. Nutrition & metabolism. 2005; 2:35.
    11. Westman EC, Yancy WS, Jr., Mavropoulos JC, Marquart M, McDuffie JR. The effect of a low-carbohydrate, ketogenic diet versus a low-glycemic index diet on glycemic control in type 2 diabetes mellitus. Nutrition & metabolism. 2008; 5:36.
    12. Paoli A. Ketogenic Diet for Obesity: Friend or Foe? International Journal of Environmental Research and Public Health. 2014; 11(2):2092-107.
    13. Klepper J, Diefenbach S, Kohlschutter A, Voit T. Effects of the ketogenic diet in the glucose transporter 1 deficiency syndrome. Prostaglandins, leukotrienes, and essential fatty acids. 2004; 70(3):321-7.

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