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O que é o RED-S e como o evitar?

O RED-S tem vindo a tornar-se um dos temas mais discutidos no mundo da nutrição no desporto1, tendo inclusive sido notícia nos meios de comunicação2  e já levou o International Olimpic Comittee3 e a American College of Sports Medicine4 a pronunciarem-se acerca do tema.

O que é o RED-S?

O RED-S ou Relative Energy Deficiency in Sport é uma extensão da tríada da atleta feminina e refere-se a um conjunto de complicações fisiológicas observadas em atletas de ambos os sexos, causada por uma ingestão insuficiente da energia necessária para o funcionamento adequado dos vários sistemas corporais, após se ter subtraído o custo energético do exercício.3,4

De notar que uma baixa disponibilidade de energia não é sinónimo de equilíbrio de energia negativo ou de perda de peso. Isto porque pode ocorrer uma redução da taxa metabólica em repouso (RMR) e pode ser atingido um novo estado de equilíbrio de energia ou a manutenção do peso corporal, apesar dessa quantidade de energia ser insuficiente para a manutenção de um funcionamento corporal ótimo.4

Quais as consequências negativas da RED-S na saúde?

O RED-S pode afetar vários sistemas corporais de forma negativa, inclusive:3,4

  • Sistema imunológico
  • Sistema gastrointestinal
  • Sistema psicológico
  • Sistema endócrino
  • Sistema metabólico
  • Sistema hematológico
  • Crescimento + desenvolvimento
  • Função menstrual (amenorreia)
  • Saúde óssea

Quais as consequências negativas do RED-S na performance?

O RED-S também afetar a performance, a curto e médio-prazo:3,4

  • ↓ Capacidade de endurance
  • ↓ Força muscular
  • ↓ Reservas de glicogénio
  • ↓ Resposta ao treino
  • ↓ Capacidade de julgamento
  • ↓ Capacidade de concentração
  • ↓ Coordenação
  • ↑ Risco de lesão
  • ↑ Depressão
  • ↑ Irritabilidade

De facto, vários estudos sugerem que a tentativa de atingir um determinado peso ou composição corporal, através de restrição energética severa e persistente, afeta de forma negativa a performance em desportos como o atletismo,5 natação6 e remo.7

Como evitar/tratar o RED-S?

A prevalência da deficiência de energia é elevada em alguns desportos3 e a literatura existente sugere que, em mulheres, uma disponibilidade de energia <30kcal/kg FFM/ dia, causa perturbações em muitos sistemas corporais, tornando este um valor limite para a baixa disponibilidade de energia.3,4,8,9

Por outro lado, parece ser necessário ingerir 45 kcal/kg FFM/dia para se atingir um equilíbrio energético e um funcionamento fisiológico saudável.3,10,11

Habitualmente, o tratamento baseia-se no aumento da ingestão alimentar, havendo evidência de que as intervenções para aumentar a disponibilidade de energia têm sucesso em reverter pelo menos algumas funções corporais prejudicadas.3,4,12

Também pode ser necessário modificar as escolhas alimentares, a distribuição da energia ao longo do dia e outras características dietéticas, sendo que essas modificações deverão ser individualizadas e periodizadas de acordo com as necessidades energéticas e os objetivos.3

De forma a otimizar a saúde óssea e minimizar o risco de ocorrência de problemas ósseos, também é necessário assegurar a manutenção de níveis adequados de vitamina D e a ingestão adequada de cálcio.3

Como calcular a disponibilidade de energia

A disponibilidade de energia poderá servir como ferramenta de diagnóstico para a prevenção ou gestão da RED-S e é definida como:

Disponibilidade de Energia = Ingestão de energia (Kcal) – Dispêndio Energético do Exercício (Kcal) / Massa Magra (kg).3

O dispêndio energético do exercício é calculado como sendo a energia adicional utilizada durante o exercício e o resultado global é expresso relativamente à massa magra (MM), refletindo os tecidos corporais mais ativos em termos metabólicos.3,12,13

Como exemplo, para calcular de disponibilidade de energia para uma atleta do sexo feminino com um peso corporal de 60 kg, 20% de massa gorda e 80% de massa magra, teríamos os seguintes valores:4

  • Massa magra (MM) = 48 kg
  • Ingestão energética (IE) = 2400 kcal/dia
  • Dispêndio energético do exercício (DEE) = 500 kcal/dia

Disponibilidade de energia = (IE – DEE) / MM = (2400 – 500) kcal/dia / 48 kg = 39.6 kcal por kg de massa magra/dia.4"

Conclusão

A tentativa de atingir um determinado peso ou composição corporal, através de restrição energética severa e persistente, pode ter variadas consequências negativas, não só ao nível da saúde, mas também ao nível da performance dos atletas.3-7

Mais uma vez fica demonstrada a necessidade dos atletas serem acompanhados de perto por um nutricionista desportivo, de forma a melhorar as práticas nutricionais desta população, sobretudo aquando de tentativas de redução drástica do peso corporal.4

➤ Mostrar/Ocultar Referências!
  1. Statuta SM, Asif IM, Drezner JA. Relative energy deficiency in sport (RED-S). British journal of sports medicine. 2017;51(21):1570.
  2. Robinson B. The athletes starving themselves for success. 2018; https://www.bbc.com/news/health-46469538?SThisFB&fbclid=IwAR1c-hwIklLFwZt1SzeySvIyeASb5dbPlxmKOIoARB8qHLvskYhHo3RzAfY. Accessed 11/12/2018, 2018.
  3. Mountjoy M, Sundgot-Borgen JK, Burke LM, et al. IOC consensus statement on relative energy deficiency in sport (RED-S): 2018 update. British journal of sports medicine. 2018;52(11):687-697.
  4. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. American College of Sports Medicine Joint Position Statement. Nutrition and Athletic Performance. Medicine and science in sports and exercise. 2016;48(3):543-568.
  5. Mooses M, Hackney AC. Anthropometrics and Body Composition in East African Runners: Potential Impact on Performance. International journal of sports physiology and performance. 2017;12(4):422-430.
  6. Vanheest JL, Rodgers CD, Mahoney CE, De Souza MJ. Ovarian suppression impairs sport performance in junior elite female swimmers. Medicine and science in sports and exercise. 2014;46(1):156-166.
  7. Woods AL, Garvican-Lewis LA, Lundy B, Rice AJ, Thompson KG. New approaches to determine fatigue in elite athletes during intensified training: Resting metabolic rate and pacing profile. PloS one. 2017;12(3):e0173807.
  8. Lieberman JL, MJ DES, Wagstaff DA, Williams NI. Menstrual Disruption with Exercise Is Not Linked to an Energy Availability Threshold. Medicine and science in sports and exercise. 2018;50(3):551-561.
  9. Williams NI, Leidy HJ, Hill BR, Lieberman JL, Legro RS, De Souza MJ. Magnitude of daily energy deficit predicts frequency but not severity of menstrual disturbances associated with exercise and caloric restriction. American journal of physiology Endocrinology and metabolism. 2015;308(1):E29-E39.
  10. Loucks AB, Heath EM. Induction of low-T3 syndrome in exercising women occurs at a threshold of energy availability. The American journal of physiology. 1994;266(3 Pt 2):R817-823.
  11. Loucks AB, Thuma JR. Luteinizing hormone pulsatility is disrupted at a threshold of energy availability in regularly menstruating women. The Journal of clinical endocrinology and metabolism. 2003;88(1):297-311.
  12. Guebels CP, Kam LC, Maddalozzo GF, Manore MM. Active women before/after an intervention designed to restore menstrual function: resting metabolic rate and comparison of four methods to quantify energy expenditure and energy availability. International journal of sport nutrition and exercise metabolism. 2014;24(1):37-46.
  13. Roza AM, Shizgal HM. The Harris Benedict equation reevaluated: resting energy requirements and the body cell mass. The American journal of clinical nutrition. 1984;40(1):168-182.

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