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Jejum Intermitente | O que diz a ciência?

A prática de períodos mais ou menos prolongados de jejum por parte do Homem é provavelmente algo de bastante ancestral.

Esta prática existiu certamente de forma forçada em épocas de escassez de alimentos, fazendo com que a nossa espécie esteja razoavelmente adaptada a esta prática. Tornou-se posteriormente voluntária e muitas vezes associada a certas práticas religiosas, mormente nas grandes religiões monoteístas como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que o praticam com finalidades diversas, entre as quais a melhoria das capacidades de meditação.

Mais recentemente, começaram a surgir alguns dados acerca da utilização do jejum como prática destinada a melhorar alguns aspetos da saúde, do qual destacamos, a tentativa de redução de peso.

Em face da situação pandémica de excesso de peso e obesidade na maior parte das regiões do globo e do grau de sucesso bastante baixo das tentativas de a resolverem, esta abordagem terapêutica tem sido testada com especial intensidade na última década.

Embora não exista uma definição precisa e consensual do que é o jejum intermitente, podemos defini-lo como a restrição voluntária da ingestão energética por períodos que vão de 12 horas a alguns dias, num padrão consistente e recorrente.

A literatura apresenta-nos assim estudos de intervenção que vão desde o jejum diário durante 12 a 16 h, também chamado de “time restricted feeding”, até à ingestão muito baixa ou nula de alimentos em dias alternados ou em alguns dias da semana.

Não obstante estas variações sobre a frequência e tipo de jejum praticado que podemos observar nos estudos de intervenção que têm sido feitos mais recentemente, os resultados obtidos apresentam uma razoável consistência.

Nos estudos feitos com animais, existe evidência abundante de que o jejum intermitente reduz o aumento de peso e melhora os diversos parâmetros metabólicos com ele relacionados, como a resistência à insulina, a hipertensão arterial, a alteração dos lípidos do plasma, entre outros.

Estes e outros trabalhos mostraram igualmente que os corpos cetónicos, gerados pelo organismo nos períodos de jejum, têm um papel metabólico que vai muito para lá do simples fornecimento energético, o que aumentou a expectativa quanto aos seus eventuais efeitos em humanos.

Estes resultados levaram naturalmente à procura destes efeitos em humanos. Embora o número de estudos seja necessariamente menor e de duração mais curta do que o desejável para se poderem estabelecer com clareza os efeitos desta dieta a longo prazo, foi possível observar que o jejum intermitente reduz efetivamente o peso em ensaios clínicos.

A maioria dos estudos compara esta intervenção com uma não-intervenção, ou seja, o grupo de controlo é submetido a uma dieta não restritiva, pelo que não surpreendem estas melhorias.

Os poucos estudos que comparam o jejum intermitente com idêntica restrição energética administrada de forma contínua (ou seja, com períodos de jejum diurno não superiores a 3-4h), não mostram superioridade de nenhuma das intervenções. Ou seja, a perda de peso e o consequente melhoramento dos parâmetros metabólicos estudados parecem depender essencialmente do nível de restrição energética aplicado.

De igual modo, trabalhos recentes mostram que na Diabetes Mellitus tipo II, a intervenção alimentar com jejum intermitente não apresenta vantagens relativamente à restrição contínua, podendo, nestes doentes específicos, colocar alguns problemas como o aumento de episódios de hipoglicemia, sobretudo em doentes que estejam medicados com insulina ou com antidiabéticos orais secretagogos da insulina, como as sulfonilureias.

Como já foi referido, não podemos ainda concluir definitivamente acerca dos efeitos deste tipo de regime nos vários parâmetros biológicos, sobretudo porque o número, tipo e duração dos estudos de que dispomos ainda não o permitem.

Alguns dados obtidos em condições muito controladas (estudos animais) revelam interessantes efeitos, por exemplo a nível cognitivo, efeitos esses que não foi ainda possível estudar no Homem.

Deste modo, será importante a continuação da investigação nesta área através de sólidos ensaios clínicos, com número de participantes e duração da intervenção adequados. A distribuição dos alimentos ao longo do dia é certamente um fator com impacto na nossa saúde metabólica e este fascinante ramo da cronobiologia não está, de todo, encerrado.

Entretanto, permanece a questão de se devemos, no decurso da nossa prática profissional como Nutricionistas, recomendar este tipo de dieta no lugar de uma restrição contínua, ou mais “convencional” para a perda de peso.

Dada a não superioridade de nenhuma destas intervenções em relação à outra, pelo menos segundo os estudos de que dispomos até ao momento, podemos dizer que essa decisão clínica terá de ser feita de acordo com as especificidades de cada doente.

Aqui terá um papel preponderante a motivação do doente e a capacidade do Nutricionista em avaliar qual o melhor regime de redução energética a aplicar em cada circunstância, fazendo uso permanente não só dos seus conhecimentos da melhor evidência científica disponível no momento como da sua experiência clínica.

O desafio tremendo da redução do peso não pode dispensar a utilização de nenhuma das intervenções demonstradamente eficazes e caberá a cada profissional fazer uso de cada uma, sempre no melhor interesse do seu doente.

Autor: Professor Dr. Nuno Borges

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  1. Azevedo I. Fasting: for body and spirit. Hektoen International, Spring 2019. (https://hekint.org/2019/04/22/fasting-for-body-and-spirit/)
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  3. Horne BD, Grajower MM, Anderson JL. Limited Evidence for the Health Effects and Safety of Intermittent Fasting Among Patients With Type 2 Diabetes [published online ahead of print, 2020 Jul 2]. JAMA. 2020;10.1001/jama.2020.3908. doi:10.1001/jama.2020.3908
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