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A Dieta Sem Glúten é Mais Saudável?

Nos últimos anos, a obesidade vem atingido níveis alarmantes. No Brasil, no ano de 2013, 51% da população já se encontrava obesa; em 2006, esse índice era de 43% 12!

Essa não é uma tendência apenas brasileira. A Organização Mundial de Saúde estima que haja 1,4 bilhão de adultos acima de 20 anos com sobrepeso e que, dentre esses,  cerca de 200 milhões de homens e 300 milhões de mulheres sejam obesas 16.

Nesse cenário, surgem vários tipo de dietas denominadas de “da moda”, com promessas nem sempre científicas, muitas vezes embalizadas por celebridades e, dentre essas, a gluten free-diet tornou-se mundialmente conhecida 1... Mas será que ela realmente funciona?

GRÃOS INTEGRAIS: DEFINIÇÃO

Antes de falar da dieta em si, é necessário entender alguns conceitos básicos. Grão integrais  são todos aqueles que contêm o núcleo intacto, conservando o endosperma, o gérmen e o farelo. São exemplos de grãos integrais o trigo, o pão preto e o arroz integral 17.

O QUE É O GLÚTEN?

O glúten é um composto formado por duas proteínas, a gliadina e a glutenina, presentes no trigo, na cevada e no centeio 5.

GLÚTEN VS. ÍNDICE DE MASSA CORPÓREA

Apesar de serem midiaticamente associadas à perda de peso, uma dieta gluten-free não significa necessariamente uma dieta hipocalórica. Alguns produtos sem glúten possuem inclusive mais gordura e mais sódio que seus pares convencionais, numa tentativa de melhorar seu paladar. Além disso, podem ser nutricionalmente mais pobres, com menor conteúdo de ferro foltato, niacina e fibras 3.

GLÚTEN VS DISLIPIDEMIA

O glúten, por si só, pode ter efeitos benéficos para indivíduos que não sejam portadores da doença celíaca. Um estudo com 24 adultos demonstrou que o consumo de glúten, mesmo numa dieta não direcionada a perda de peso, conseguia reduzir os níveis sanguíneos de triglicerídeos 6,8,9.

GLÚTEN VS HIPERTENSÃO

O glúten tem a capacidade de inibir a enzima conversora de angiotensina I (ECA). Essa enzima, a ECA, converte a angiotensina I em angiotensina II, que leva à contração dos vasos sanguíneos, e degrada a bradicinina, que relaxa os vasos, favorecendo, com sua inibição, o controle da pressão arterial 2,14,15.

GLÚTEN E MICROBIOTA INTESTINAL

A composição da microbiota pode se associar a ganho ou perda de peso. Existe a hipótese de que, dependendo do tipo de bactérias da flora intestinal, haveria maior ou menor absorção de calorias da dieta 4,7.

Uma alimentação gluten-free pode levar à redução de bactérias benéficas, como Bifidobacterium, Lactobacillus, Clostridium lituseburense e Faecalibacterium prausnitzii e aumento de batérias maléficas como Enterobacteriaceae e Escherichia coli patogênica.

Por outro lado, um estudo que comparava uma dieta à base de trigo integral com farelo de trigo, evidenciou-se que apenas na dieta com regime integral consegia-se o aumento dos níveis de Bifidobacterium 6.

DIETA SEM GLÚTEN VS NÍVEIS DE ARSÊNIO

Em 2012, no Chile, um estudo avaliou a concentraçaõ de arsênio, um carcinógeno, em produtos gluten-free à base de arroz, principal produto utilizado nesse tipo de dieta. Os níveis de arsênio se demonstraram elevados, o que representa um potencial risco aos consumidores 10,11.

CUSTOS DE UMA DIETA SEM GLÚTEN

Uma dieta sem glúten tem o inconveniente de ser mais cara!

Um estudo no Canadá comparou o valor de produtos gluten-free com versões semelhantes não-isentas de glúten em duas grandes cadeias de supermercado. A unidade de comparação era o preço em grama de cada produto. Um total de 56 foi avaliado e todos os produtos sem glúten mostraram-se mais caros que suas versões regulares, com custo médio por grama de US$ 1,71 (+/- 0,93)  e de US$ 0,61 (+/- 0,38) respectivamente. Em média, os alimentos sem glúten eram 24% mais caros 13.

CONCLUSÃO

A dieta isenta de glúten tem suas indicações precisas, como no caso de pacientes portadores de doença celíaca, mas não deve ser estendidas à população geral pois, além de serem mais caros, os produtos gluten-free são, algumas vezes, mais calóricos e com menor conteúdo de fibras e de nutrientes que seus pares convencionais.

Autores:

  • Rodrigo Siqueira da Rocha Dias; Médico – Universidade Federal Fluminense – Brasil; Pós-graduado em Nutrologia pela Universidade Veiga de Almeida – Brasil
  • Yolanda Faia Manhães Tolentino; Médica – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – Brasil; Mestrado em Clínica Médica -Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil
➤ Mostrar/Ocultar Referências!
  1. Bolsa de Mulher. <http://www.bolsademulher.com/corpo/emagrecerempoucosdias>. Acessado em 31/08/2014.
  2. BEHALL KM, SCHOLFIEL DJ, HALLFRISCH J. Whole-grain diets reduce blood pressure in mildly hypercholesterolemic men and women. J Am Diet Assoc, v.112, n. 9, p.1445-1449,2006.
  3. Consumer Reports. Disponível em <http://www.consumerreports.org/cro/magazine/2015/01/will-a-gluten-free-diet-really-make-you-healthier/index.htm>. Acesso em: 01 fev.2015.
  4. DI BAISE JK, et al. Gut microbiota and its possible relationship with obesity. Mayo Clin Proc, n.83, p.460-469, 2008.
  5. EL CHAMMAS,Khalil; DANNER, Elaine. Gluten Free Diet in Nonceliac Disease. Nutrition in Clinical Practice, v. 26, n.3, p.249299, 2011.
  6. GAESSER, Glenn A.; ANGADI, Siddharta S. Gluten free Diet: Imprudent Dietary Advice for General Population?. Journal of The Academy of Nutrition and Dietetics, v. 112, n. 9, p. 1330-1333,2012.
  7. GIACCO, R.; PEPA, Della G.; et al. Whole Whole grain intake in relation to body weight: from epidemiological evidence to clinical trials. Nutrition, Metabolism & Cardiovasc Diseases,21, n.12, p.901-908,2011.
  8. JENKINS DJA, et al. Hight-protein diets in hyperlipidemia: Effect of wheatgluten and serumlipids, uric acid and renal function. Am J Clin Nutr, v. 74, n. 1, p. 57-63, 2001.
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  10. MUNERA-PICAZO, Sandra; et al. Inorganic and total arsenic contents in rice-based foods for children with celiac disease. J Food Sci. 79, n.1, p.122-128, 2014.
  11. MUNERA-PICAZO, Sandra; BURLÓ, Francisco; CARBONELL-BARACHINA, Ángel A.. Arsenic speciation in rice-based food dor adults with celiac disease. Food Addit Contam Part A Chem Anal Control Expo Risck Asses. v.31, n.8, p.1358-1366, 2014.
  12. Portal Brasil. Disponível em <http://www.brasil.gov.br/saude/2013/08/obesidadeatingemaisdametadedapopulacaobrasileiraapontaestudo>. Acesso em 24/08/2014.
  13. STEVENS, Laci; RASHID, Mohsin. Gluten-free and regular foods: a cost comparison. Canadian Journal of Dietetic Practice and Research. v.69, n.3, p. 147-150, 2008.
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  16. World Health Organization. <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/>. Acessado em 31/08/2014.
  17. YE, Eva Quing; et al. Greater Whole Grain Intake is Associated with Lower RIsk Type 2 Diabetes, Cardiovascular Disease, and Weight Gain. The Journal of Nutrition, v.142,p. 1304-1313, 2012.

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