Avançar para o conteúdo principal

O Óleo de Coco é Saudável?

Nos últimos anos o óleo de coco tem vindo a ser promovido como sendo um óleo saudável que proporciona variados benefícios para a saúde.

Foram publicados numerosos artigos acerca do tema em sites, blog, revistas e estes demonstram que atualmente é muito fácil divulgar informação incorreta e até potencialmente prejudicial para a saúde.

Muitos desses artigos afirmam que o óleo de coco, composto por 92% de gordura saturada(1), comporta-se de forma diferente de outros alimentos ricos em gordura saturada devido a conter sobretudo triglicerídeos de cadeia média (MCT), que são absorvidos de forma mais rápida e podem ser vantajosos para a saúde.(2)

De facto, os ácidos gordos de cadeia média são mais solúveis do que os de cadeia longa(1) e isso permite que sejam absorvidos mais rapidamente.(2)

Esta diferença na solubilidade ocorre nos ácidos gordos com até 10 carbonos ou menos, o que exclui o ácido láurico, que contém 12 carbonos.(1)

O ácido láurico constitui o principal ácido gordo do óleo de coco (47%) e este pode ser classificado como ácido gordo de cadeia média ou de cadeia longa. No entanto, este comporta-se mais como um ácido gordo de cadeia longa porque a maioria (70-75%) é absorvida através de quilomicras.(3) Em comparação, 95% dos ácidos gordos de cadeia média são absorvidos diretamente através da veia porta.(4)

De facto, os triglicerídeos presentes no óleo de coco têm um peso molecular médio de 638, enquanto os triglicerídeos de cadeia média, presentes nos óleos MCT, têm um peso significativamente mais baixo (512), o que facilita a acção da lípase pancreática. Consequentemente, os triglicerídeos de cadeia média são hidrolizados de forma mais rápida e mais completa do que os triglicerídeos de cadeia mais longa.(5)

Assim sendo, é errado afirmar que o óleo de coco é composto sobretudo por ácidos gordos de cadeia média e a literatura científica relativa aos possíveis benefícios dos ácidos gordos de cadeia média não pode ser transposta para o óleo de coco, pois os seus triglicerídeos predominantes têm uma estrutura, absorção e metabolismo diferente dos triglicerídeos de cadeia média.(1)

Revisão da literatura

Foi publicado recentemente um estudo de revisão que analisou a literatura existente acerca da influência do óleo de coco na saúde cardiovascular, incluindo 8 ensaios clínicos e 13 estudos observacionais.(1)

Os investigadores analisaram 7 estudos de intervenção que compararam diretamente o óleo de coco com óleos ricos em gordura insaturada sendo que a intervenções com óleo de coco resultaram em níveis significativamente mais elevados de colesterol em 7 estudos, e níveis significativamente mais elevados de LDL em 6 estudos, sem diferenças significativas num estudo.

Os efeitos do óleo de coco no colesterol HDL e no rácio de colesterol total para HDL e de LDL para HDL foram inconsistentes, o que torna difícil prever os seus efeitos em termos de risco cardiovascular.(1)

De uma forma geral, o óleo de coco aumentou mais o colesterol LDL e o colesterol total do que os óleos derivados de plantas, embora um pouco menos do que a manteiga.(1)

Consumo de óleo de coco em populações nativas

A evidência epidemiológica de populações que ingerem quantidades substanciais de coco é frequentemente citada como evidência de que o óleo de coco não tem efeitos negativos na saúde cardiovascular. No entanto, é importante notar que a maioria das populações indígenas ingere polpa de coco ou creme de coco espremido.(6)

De referir também que a extracção e uso de óleo de coco na alimentação é um fenómeno relativamente recente. Quando os dados mais antigos foram recolhidos por investigadores, os produtos derivados do coco eram consumidos como parte de uma dieta tradicional caracterizada por uma baixa ingestão de alimentos processados.(7)

Mais tarde, ocorreu uma mudança dos hábitos alimentares de muitas populações indígenas, que passaram a seguir um padrão alimentar ocidental, aumentando a sua importação e ingestão de alimentos não saudáveis, tais como carne enlatada, fast food e ingredientes processados, o que conduziu a um grande aumento do número de obesos e a um agravamento do estado de saúde dessas populações.(7)

Estudos observacionais sugerem que o consumo de polpa de coco ou de coco espremido, no contexto de um padrão alimentar tradicional típica das populações das ilhas do pacífico, que inclui quantidades significativas de vegetais, fruta e peixe,(8) não conduz a eventos cardiovasculares adversos. No entanto, devido às grandes diferenças entre os padrões dietéticos e de estilo de vida, esses dados não podem ser extrapolados e aplicados à dieta ocidental típica.(1)

Conclusão

Resumindo, este artigo de revisão não encontrou evidências de que o óleo de coco deva ser visto de forma diferente de outras fontas de gordura saturada no que respeita às recomendações dietéticas.(1)

A conclusão deste artigo de revisão está de acorco com as recomendações da American Heart Association(9) e da US Department of Agriculture’s Dietary Guidelines for Americans, 2010,(10) que afirmam que o óleo de coco não é preferível a outras gorduras saturadas e recomendam uma ingestão de gordura saturada não ultrapasse as 7-10% das calorias totais, porque pode aumentar o risco de doença cardiovascular.

A American Heart Association expressou-se especificamente sobre o tema do óleo de coco, referindo ainda que:(9)
Uma vez que o óleo de coco aumenta o colesterol LDL, uma causa de doença cardiovascular, e não tem efeitos favoráveis compensatórios conhecidos, aconselhamos a evitar o seu uso.
➤ Mostrar/Ocultar Referências!
  1. Eyres L, Eyres MF, Chisholm A, Brown RC. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutrition Reviews. 2016; 74(4):267-80.
  2. Marten B, Pfeuffer M, Schrezenmeir J. Medium-chain triglycerides. International Dairy Journal. 2006; 16(11):1374-82.
  3. Denke MA, Grundy SM. Comparison of effects of lauric acid and palmitic acid on plasma lipids and lipoproteins. The American journal of clinical nutrition. 1992; 56(5):895-8.
  4. Swift LL, Hill JO, Peters JC, Greene HL. Medium-chain fatty acids: evidence for incorporation into chylomicron triglycerides in humans. The American journal of clinical nutrition. 1990; 52(5):834-6.
  5. Bach AC, Babayan VK. Medium-chain triglycerides: an update. The American journal of clinical nutrition. 1982; 36(5):950-62.
  6. Stanhope JM, Sampson VM, Prior IA. The Tokelau Island Migrant Study: serum lipid concentration in two environments. Journal of chronic diseases. 1981; 34(2-3):45-55.
  7. Pacific islanders pay heavy price for abandoning traditional diet. Bulletin of the World Health Organization. 2010; 88(7):484-5.
  8. DiBello JR, McGarvey ST, Kraft P, Goldberg R, Campos H, Quested C, et al. Dietary patterns are associated with metabolic syndrome in adult Samoans. The Journal of nutrition. 2009; 139(10):1933-43.
  9. Sacks FM, Lichtenstein AH, Wu JHY, Appel LJ, Creager MA, Kris-Etherton PM, et al. Dietary Fats and Cardiovascular Disease: A Presidential Advisory From the American Heart Association. Circulation. 2017
  10. McGuire S. U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services, Dietary Guidelines for Americans, 2010. 7th Edition, Washington, DC: U.S. Government Printing Office, January 2011. Advances in Nutrition. 2011; 2(3):293-94.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Quanta proteína é possível absorver por refeição?

Dentre a série de tópicos relativamente controversos englobados no mundo da nutrição temos a questão da quantidade de proteína que o corpo humano consegue absorver no seguimento de uma dada refeição. Relacionado com a mesma temática, temos a questão da definição da quantidade de proteína que idealmente se deve ingerir após a execução de um treino resistido, com vista a maximizar a síntese de proteína muscular. Estudos publicados até há poucos anos concluíram que a ingestão de 20 a 25 g de proteína de boa qualidade (whey, proteína do leite, ou proteína de ovo) após um treino de musculação direcionado à musculatura dos membros inferiores seria o suficiente para maximizar a síntese de proteína muscular em adultos jovens e saudáveis, sendo que em doses superiores os aminoácidos “excedentários” seriam simplesmente oxidados. 1,2   Entretanto, em 2016, os autores Macnaughton et al. 3 verificaram que a suplementação com 40 g de proteína whey após uma sessão de treino de musculação de corpo i

É Melhor Perder Peso de Forma Rápida ou Lenta?

A perda de gordura pode proporcionar vários benefícios para a saúde daqueles que têm excesso de peso. ¹⁻² e é uma necessidade imperativa para atletas de determinados desportos e para aqueles que participam em competições de culturismo e similares.³ No entanto, independentemente do ritmo a que se perde peso, há uma série de consequências negativas que são praticamente impossíveis de evitar. Esses efeitos indesejáveis incluem a diminuição da taxa metabólica basal em repouso,⁴ dos níveis de testosterona,⁵ perda de massa magra,⁶ e diminuição da força muscular.⁷⁻⁸ De forma a minimizar esses efeitos negativos, são muitos aqueles que evitam as dietas mais drásticas, do tipo yo-yo e que, em vez disso, aconselham uma perda de peso lenta, por exemplo, de 0,5 kg de peso corporal, por semana.³ O que diz a ciência? Já foram conduzidos variados estudos que procuraram determinar qual a velocidade de perda de peso que melhor preserva a taxa metabólica, a massa magra, bem como os níveis de testosterona

Qual é a Quantidade de Proteína Ideal para Maximizar a Força e a Massa Muscular?

Tipicamente, os praticantes de musculação almejam obter um físico que, para além de exibir uma percentagem de gordura corporal relativamente baixa, apresente uma musculatura visivelmente desenvolvida, frequentemente ao maior nível possível. Para além destes, e sobretudo com vista a maximizar o seu rendimento, os atletas de desportos de força, assim como os praticantes de outras modalidades desportivas também se interessam particularmente por esta temática.  Neste contexto, os nutricionistas que de algum modo trabalham com estes indivíduos, devem ser capazes de os aconselhar relativamente à quantidade de proteína ideal para maximizar os ganhos de força e de massa muscular, naqueles que executam treino resistido. Será necessária uma dose de proteína superior à recomendada pela EFSA - Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (0,83 g/kg peso)¹ para maximizar os ganhos de força e a hipertrofia muscular em adultos jovens?  Este tópico tem vindo a ser investigado de forma relativame